sábado, 22 de outubro de 2011

Quando é que uma mulher é mesmo bonita?


Quando é que uma mulher é mesmo bonita?No momento em que sai do cabeleireiro?Quando está numa festa?Quando posa para uma foto?Clic,clic,clic.Sorriso amarelo,postura artificial,desempenho para o público.Bonitas mesmo somos quando ninguém está vendo.

Atirada no sofá,com uma calça de ficar em casa,uma blusa faltando um botão,o cabelo caindo de qualquer jeito pelo ombro,nenhuma preocupação se o batom resistiu ou não a longa passagem do dia.Um livro nas mãos,o olhar perdido dentro de tantas palavras,um ar de descoberta no rosto.

Linda.



Caminhando pela rua,sol escaldante,a manga da blusa arregaçada,a nuca ardendo,o cabelo sendo erguido num coque mal feito,um ar de desaprovação pelo atraso do ônibus,centenas de pessoas cruzando-se e ninguém enxergando ninguém,ela enxuga a testa com a palma da mão,ajeita a sombrancelha com os dedos.

Perfeita.



Saindo do banho,a toalha abandonada no chão,o corpo ainda úmido,as mãos desembaçando o espelho,creme hidratante nas pernas,desodorante,um último minuto de relaxamento,há um dia inteiro para percorrer e assim que a porta do banheiro for aberta já não será mais dona de si mesma.Escovar os dentes,cuspir,enxugar a boca,respirar fundo.

Espetacular.



Dentro do teatro ,as luzes apagadas,o riso solto,escancarado,as mãos aplaudindo em cena aberta,sem comandos,seu tronco deslocando-se quando uma fala surpreende,gargalhada que não se constrange,não obedece a adequação,gengiva a mostra,seu ombro encostado no ombro ao lado,ambos voltados para a frente,a mão tapando a boca num breve acesso de timidez por tanta alegria.

Um Sonho.



O carro estacionado ás pressas numa rua desconhecida,uma necessidade urgente de chorar por causa de uma música ou de uma lembrança,a cabeça jogada sobre o volante,as lágrimas quantes,fartas,um lenço de papel catado na bolsa,o nariz sendo assoado,os dedos limpando as pálpebras,o retrovisor acusando olhos vermelhos e mesmo assim servindo de amparo,estou aqui com você,só eu estou te vendo.

Encantadora.
(Crônica de Martha Medeiros)

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